Abandono Afetivo- Relação Pai e Filha


A menina de azul 



Ele não me ensinou as cores do semáforo. 
Ele não me instruiu a atravessar a rua com cuidado. 
Ele não viu minha apresentação de chapeuzinho vermelho na escola.
Ele não viu os dias de escassez.
Ele não percebeu as transformações do meu corpo. 
Não, eu não sou mais uma menina.
Ele não estava lá quando precisei me sentir segura.
Ele não se lembrou do meu aniversário, por isso não o esperei na páscoa. 
Ele não estava quando necessitei de um conselho.
Ele não me ajudou a levantar das minhas quedas.
Ele não sabe as series que assisto.
Ele não viu minha releitura de Mona Lisa na aula de artes.
Ele não sabe como desejei ter o batom da moça da novela.
Ele não viu minhas noites de choro, dúvidas e medos.
Ele não viu meu sorriso quando tirei nota dez. 
Ele não sabe minha cor preferida.
Ele não sabe o mais importante sobre mim.
Mas ele sabe exigir sentimentos que não cativou. Contraditório, não?
Ele sabe chorar usando-me como desculpa para o fracasso de suas próprias escolhas.
Ele sabe fingir no trabalho que precisa de folga para ver-me, mas
não vem.
Ele sabe mentir que precisa de um adiantamento de salário para comprar um remédio pra mim que nunca chegou.

Ele sabe apontar, culpar e criticar quem na real sinto que me ama, quem na realidade escolheu abdicar de muitas coisas, quem na verdade faz questão da minha presença, quem trocaria a festa mais badalada, a escova no cabelo e tantas outras coisas pra fazer o que fosse preciso por mim.

Ninguém precisa alienar-me é minha vida é o que eu vivo e sinto diariamente.
Ele é alguém perdido em si mesmo e na ilusão de achar que sou as pessoas que acreditam em suas justificativas e em suas pseudo-lágrimas. Essas pessoas podem acreditar nele por dois motivos: estas escutaram só o lado de quem faz questão de justificar-se e elas não estão na minha pele, mas amanhã podem sentar no mesmo banco, porque infelizmente eu já vi histórias como a minha. 

Eu dispenso as marcações dele nas redes sociais, porque amor é ao vivo e sem plateia. 
Eu aprendi algo precioso diante de todos esses momentos: Uma menina consegue atravessar o mais íngreme caminho sem
esmolar seja o que for. Se eu conseguir passar pelo abandono afetivo e financeiro de um pai eu consigo qualquer outra coisa. 

E assim a ausência passou a ser boa e presença dispensável. 

Pais não desperdicem o tempo, pois ele não volta. Respeito e admiração são construídos, não inventem mentiras para justificar o abandono, porque estas cedo ou mais tarde serão os tijolos do muro que vocês próprios estão construindo. Autoria: Cigana Mah 🌷

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